O que meu filho me ensinou sobre perder prazos (e ganhar abraços)

Antes da maternidade, eu tratava prazos como questão de honra. Nenhuma petição fora do tempo, nenhum recurso atrasado, nenhum despacho ignorado. Era minha forma de provar eficiência e dedicação.

Quando meu filho chegou, descobri uma nova agenda: a agenda dos abraços. De repente, minha prioridade também passou a ser o tempo de colo, os resfriados fora de hora e os sorrisos inesperados.

E aí surgiu a maior lição: como ser advogada e mãe sem deixar que os prazos da profissão entrem em conflito com os prazos do coração.


O prazo judicial e o prazo da vida

Na advocacia, prazos processuais não são opcionais. Eles são rígidos, inadiáveis, e a perda de um único prazo pode significar desde o encerramento de um direito até a responsabilização profissional.

Já na maternidade, os prazos são invisíveis e insubstituíveis: a primeira vez que seu filho pede colo, o momento em que ele aprende a andar, o instante em que ele sussurra “eu te amo” antes de dormir. Esses prazos não estão no e-SAJ nem no PJe, mas são tão ou mais relevantes.

A questão não é escolher entre um ou outro, mas aprender a conciliar os dois sem negligenciar nenhuma parte.


O dia em que aprendi sobre limites

Certa vez, em meio a um prazo apertado, meu filho ficou doente. Entre febre e pedidos de colo, precisei reorganizar toda a minha rotina. O prazo não se perdeu — porque não poderia se perder —, mas foi entregue de madrugada, após muitas pausas para cuidar dele.

Ali entendi que não se trata de romantizar o atraso, mas de aceitar que a maternidade exige flexibilidade e resiliência. É possível cumprir prazos sem deixar de estar presente — mas isso pede planejamento e responsabilidade redobrada.


Passo a passo para equilibrar responsabilidade e afeto:

Organize-se com antecedência
Nunca deixe peças processuais para a última hora. Antecipe ao máximo os trabalhos para criar margem de segurança, principalmente em fases da vida em que imprevistos infantis são comuns.

Use a tecnologia a seu favor
Ferramentas de gestão de processos, alertas automáticos e checklists digitais ajudam a manter prazos sob controle e liberam energia mental para a maternidade.

Monte uma rede de apoio profissional
Tenha colegas, sócios ou correspondentes de confiança para dividir responsabilidades em situações emergenciais. Delegar não é fraqueza, é estratégia.

Não esconda sua realidade
Se necessário, alinhe com clientes que você também é mãe. A transparência constrói confiança e permite ajustar expectativas sem comprometer a entrega.

Crie rituais de transição
Saia da audiência e permita-se um abraço antes de voltar ao computador. Feche um recurso e celebre com uma pausa para brincar. Pequenos gestos marcam o equilíbrio entre os dois mundos.


O abraço que fortalece a profissional

Conciliar maternidade e advocacia não é fácil, mas também não é impossível. Se, por um lado, o rigor dos prazos exige organização e disciplina, por outro, os abraços trazem a leveza necessária para seguir com energia e propósito.

Meu filho me ensinou que abraços atrasados não têm remédio, mas também me mostrou a importância de não atrasar os prazos que sustentam o trabalho e a confiança dos meus clientes.


Entre prazos e abraços, a balança possível

Ser mãe advogada é aprender todos os dias a pesar responsabilidades e afetos. Perder um prazo judicial nunca é uma opção, mas perder um momento com os filhos pode ser um arrependimento que nos acompanha para sempre.

Por isso, meu compromisso é duplo: cumprir com rigor o que a advocacia exige e, ao mesmo tempo, honrar os prazos invisíveis que a maternidade impõe.

Se existe um segredo, talvez seja este: abraçar cada entrega — seja ela um recurso protocolado no tempo certo ou um colo oferecido na hora exata.

E assim sigo, entre prazos e abraços, construindo uma vida em que responsabilidade e afeto caminham lado a lado.