Quando ser mãe me ensinou a negociar melhor no Direito

Antes de ser mãe, eu já achava que tinha aprendido a arte da negociação. Passava horas estudando teses jurídicas, montando argumentos convincentes e calculando riscos para defender os interesses dos meus clientes.

Mas nada — absolutamente nada — me preparou para negociar com uma criança de três anos que não queria vestir o uniforme da escola.

Foi nesse campo minado da maternidade que descobri habilidades que nunca encontrei em nenhum curso de Direito ou manual de negociação. E o mais curioso é que, ao levá-las para o escritório, percebi que minha forma de lidar com clientes, colegas e até com a equipe mudou radicalmente.


O poder da escuta atenta

Negociar com um filho pequeno exige algo que, no Direito, muitas vezes esquecemos: escutar de verdade.

Não é só ouvir as palavras — é perceber o que está por trás do choro, do “não quero”, da birra. Quando eu aprendi a parar e entender que meu filho não estava recusando o uniforme, mas expressando ansiedade pelo primeiro dia de aula, eu percebi que escuta é também empatia.

No escritório, essa mesma escuta me ajudou a entender clientes inseguros e colegas estressados. Porque, por trás de cada posição dura numa negociação, existe um medo, uma expectativa ou uma necessidade que precisa ser reconhecida.


A paciência como estratégia

Com um filho, aprendi que insistir em ganhar de imediato raramente funciona. Muitas vezes, é preciso esperar o momento certo — dar espaço para a criança se acalmar, respirar fundo e só então voltar à conversa.

Esse aprendizado me mostrou que paciência não é passividade. É estratégia. Em uma negociação com a parte contrária ou até na gestão da equipe, dar tempo pode ser mais eficaz do que tentar vencer no grito ou na pressa.


Criatividade para encontrar soluções

Quantas vezes já precisei transformar a escovação dos dentes em brincadeira ou inventar uma história para convencer meu filho a experimentar uma comida nova?

Na advocacia, essa mesma criatividade me ajuda a encontrar saídas fora do óbvio: redigir uma cláusula inovadora, propor uma alternativa que ninguém tinha pensado ou simplificar uma explicação para que o cliente realmente compreenda o contrato.

A maternidade me mostrou que, no fundo, negociar é também inventar caminhos.


Estabelecer limites claros

Se tem algo que a maternidade me ensinou é que dizer “não” com firmeza, mas com amor, é essencial. Crianças precisam de limites para se sentirem seguras — e adultos também.

Hoje, na gestão do escritório, sei que estabelecer limites claros com a equipe, com clientes e até comigo mesma é um ato de cuidado. Não aceitar demandas abusivas ou prazos irreais virou parte do meu jeito de negociar.


O passo a passo que levo da sala de casa para o escritório

  1. Escuto primeiro, argumento depois. Pergunto o que a pessoa realmente precisa antes de contra-argumentar.
  2. Valido emoções. Reconheço o desconforto do outro lado, seja de um filho cansado ou de um cliente ansioso.
  3. Crio alternativas. Em vez de impor, ofereço opções possíveis.
  4. Dou tempo. Se percebo resistência, sei que insistir pode ser pior do que pausar.
  5. Defino limites. Explico até onde posso ir — e sustento minha posição com clareza.

Mais do que técnica, humanidade

No fim, percebi que as melhores negociações não são aquelas em que alguém sai vencendo, mas aquelas em que ambas as partes se sentem respeitadas.

Ser mãe me mostrou que não adianta “ganhar” uma discussão se, no processo, eu ferir a confiança do meu filho. E no Direito não é diferente: preservar relações, construir pontes e respeitar pessoas é tão importante quanto fechar um acordo favorável.


Entre prazos e abraços, eu aprendi

Hoje, quando entro em uma negociação difícil, muitas vezes lembro de manhãs caóticas tentando convencer meu filho a calçar o sapato. E sorrio. Porque sei que, se aprendi a transformar aquele momento em uma oportunidade de conexão, também consigo transformar negociações profissionais em algo mais humano e eficaz.

Negociar como mãe e como advogada não é só sobre palavras bem escolhidas. É sobre presença, respeito e criatividade.

E, no fim do dia, é sobre entender que a vida — dentro ou fora do escritório — se constrói muito mais em acordos do que em vitórias solitárias.